
Longe vão os tempos em que o termo “Marialva”, não era mais que um título nobiliárquico atribuído pelo Rei a quem de mercê. Em 1440, o título de “Conde de Marialva”, atribuído pelo então Rei de Portugal D. Afonso V, coube a Vasco Fernandes Coutinho pelo papel que desempenhara nas campanhas militares no Norte de África. Duzentos anos mais tarde, o título passou a “Marquês de Marialva”, sendo a vez de D. António Luís de Meneses ver reconhecido o seu papel decisivo na Revolução de 1640, condecorado desta feita pelo Rei D. Afonso VI.
Tratavam-se, portanto, de títulos que carregavam um enorme peso de contribuição para o País. Títulos cobertos de esforço, dedicação, lutas e amor à Pátria. Eram títulos pelos quais, valia a pena lutar.
Mas isso eram outros Marialvas.
Tirando os cavalos, algum sotaque e um certo gosto pela “arte de lutar”, qualquer semelhança dos Marialvas de então com os dos nossos dias, seria a mais pura das ilusões.
Bom fado, pesados pratos regados a vinho tinto, conversa alta antes do pedido de “silêncio na casa”, machos robustos e tantas vezes baixos que falam alto, muito alto, num sotaque maioritariamente a puxar para os lados do Ribatejo Alentejano, assim se pratica o dialecto marialvês dos tempos modernos.
Criticados por uns, invejados por outros, ridículos para umas, heróis para outras, os Marialvas representam antes o estilo bad boy numa versão como se que, tradicional.
Geralmente oriundos de famílias antigas lusitânas, que, não se desfazendo das terras, trocam o caos da cidade por uma vida no campo alicerçada por cavalos ou vinhos, os jovens, meninos de bem, estudam agronomia ou algo que seja ligado à terra, para dar continuidade aos negócios da família.
E é vindos da terra que em Lisboa aterram. Sempre com as suas botas acastanhadas – o tom acusa muita terra batida – e habituados a lidar com animais em primeira instância, o acto de “acivilizamento” por vezes custa. Lá boas maneiras à antiga Portuguesa eles sabem ter, mas quando lhes chega o tinto ao nariz, a coisa começa a dar para o torto.
Os “nossos” Marialvas podem ser feios que nem trovões, mas conseguem achar-se a última coca do deserto. E podem bem ser, lá no deserto deles. De facto, entre bois, cavalos e touros, acredito que sobressairão. Mas nunca desfazendo e ainda menos generalizando, a sério. Acredito e sei, que no meio de tanta cowboyada também se encontram meninos bonitos. Por dentro e por fora, claro.
Feios ou bonitos, a verdade é que o sucesso é realmente comprovado. Geralmente mulherengos, costumam agradar bastante as meninas de betisse paralela que gostam do rapaz que é mau e bruto. Mas com os modos de antigamente, e é nisso que fazem a diferença.
Então, enquanto elas enchem as bancadas do Campo Pequeno, eles enchem o peito de orgulho – às vezes incham tanto que temo o que possa acontecer aos trajes justos que usam– e lá se atiram entre “toiro toiro toiro, ah toiro lindoooo” e uns movimentos ancais que acho dignos, em filinha, prontos a botar os cornos no touro.
Já elas, gemem, gritam, assustam-se e, por fim, aplaudem, orgulhosas o seu macho enchuto.
E é literal a forma directa de como passam das arenas para as tascas – tasco mesmo qual Bica do Sapato, noblese oblige mas não tanto. Um pouco na onda daquele típico salto que fazem aquando da pega, assim invadem, que nem touros raivosos, o dito tasco, interrompendo então, o faduncho que alguém cantava com sentimento.
A sua presença é imediatamente notória: são, na maioria das vezes, mais que as mães, baixos e fortalhoides, vestem-se de forma despreocupada - provavelmente a peça mais moderna é uma camisa que a namorada betinha comprou na Pull – e falam alto, quase que se pode dizer que grunhem – quiçá fruto das convivências animalescas.
E são brutos, brutamontes mesmo. E como têm a força à flor da pele, muitas vezes sentem necessidade de a libertar mas não sabem bem para onde. Porque em Lisboa não há touros, ou se os há, não estão à mão de semear, o moço lá tem de arranjar forma de extraviar as hormonas inquietas e saudosas do raio dos animais, terminando invevitavelmente na porrada. E a culpa não é deles mesmo, está-lhes no sangue.
E é aqui que julgo notória a diferença dos “nossos” Marialvas para os de antigamente. Não é pelos comes e bebes, já que antigamente havia uma certa selvajaria no acto de comer – isto antes de ser chic ter um prato XL e uma folha de rúcola no centro. Não é no mulherio porque a pouca vergonha também abundava nas cortes e afins. Nem tão pouco é pelo bom uso das palavras. Mas a diferença é nítida no objectivo das lutas. Enquanto os de antigamente lutavam por uma causa maior, nobre, lá está, os de hoje lutam sem aparente causa. Lutam porque sim.
Do mundo da blogosfera: "Um marialva é um Homem (com H grande notem, é Macho!) que não tem medo de ninguém, gosta de touradas, fado, vinho, e mulheres, muitas mulheres... Em linguagem mundana e refinada, é resumido em "Putas e vinho verde".
Macho: “Que é do sexo masculino.10. Pop. Forte, robusto, másculo, vigoroso”, até aqui nada de novo, mas a definição começa por “Qualquer animal do sexo masculino”.
E é aí que julgo que as minhas suposições não estão de todo erradas. Se é que me entendem.
(artigo publicado na edição nº 28 da Revista Nós, do Jornal I")




