segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Nós Marialvas: modo de ser, modo de usar

Longe vão os tempos em que o termo “Marialva”, não era mais que um título nobiliárquico atribuído pelo Rei a quem de mercê. Em 1440, o título de “Conde de Marialva”, atribuído pelo então Rei de Portugal D. Afonso V, coube a Vasco Fernandes Coutinho pelo papel que desempenhara nas campanhas militares no Norte de África. Duzentos anos mais tarde, o título passou a “Marquês de Marialva”, sendo a vez de D. António Luís de Meneses ver reconhecido o seu papel decisivo na Revolução de 1640, condecorado desta feita pelo Rei D. Afonso VI.

Tratavam-se, portanto, de títulos que carregavam um enorme peso de contribuição para o País. Títulos cobertos de esforço, dedicação, lutas e amor à Pátria. Eram títulos pelos quais, valia a pena lutar.

Mas isso eram outros Marialvas.

Tirando os cavalos, algum sotaque e um certo gosto pela “arte de lutar”, qualquer semelhança dos Marialvas de então com os dos nossos dias, seria a mais pura das ilusões.

Bom fado, pesados pratos regados a vinho tinto, conversa alta antes do pedido de “silêncio na casa”, machos robustos e tantas vezes baixos que falam alto, muito alto, num sotaque maioritariamente a puxar para os lados do Ribatejo Alentejano, assim se pratica o dialecto marialvês dos tempos modernos.

Criticados por uns, invejados por outros, ridículos para umas, heróis para outras, os Marialvas representam antes o estilo bad boy numa versão como se que, tradicional.

Geralmente oriundos de famílias antigas lusitânas, que, não se desfazendo das terras, trocam o caos da cidade por uma vida no campo alicerçada por cavalos ou vinhos, os jovens, meninos de bem, estudam agronomia ou algo que seja ligado à terra, para dar continuidade aos negócios da família.

E é vindos da terra que em Lisboa aterram. Sempre com as suas botas acastanhadas – o tom acusa muita terra batida – e habituados a lidar com animais em primeira instância, o acto de “acivilizamento” por vezes custa. Lá boas maneiras à antiga Portuguesa eles sabem ter, mas quando lhes chega o tinto ao nariz, a coisa começa a dar para o torto.

Os “nossos” Marialvas podem ser feios que nem trovões, mas conseguem achar-se a última coca do deserto. E podem bem ser, lá no deserto deles. De facto, entre bois, cavalos e touros, acredito que sobressairão. Mas nunca desfazendo e ainda menos generalizando, a sério. Acredito e sei, que no meio de tanta cowboyada também se encontram meninos bonitos. Por dentro e por fora, claro.

Feios ou bonitos, a verdade é que o sucesso é realmente comprovado. Geralmente mulherengos, costumam agradar bastante as meninas de betisse paralela que gostam do rapaz que é mau e bruto. Mas com os modos de antigamente, e é nisso que fazem a diferença.

Então, enquanto elas enchem as bancadas do Campo Pequeno, eles enchem o peito de orgulho – às vezes incham tanto que temo o que possa acontecer aos trajes justos que usam– e lá se atiram entre “toiro toiro toiro, ah toiro lindoooo” e uns movimentos ancais que acho dignos, em filinha, prontos a botar os cornos no touro.

Já elas, gemem, gritam, assustam-se e, por fim, aplaudem, orgulhosas o seu macho enchuto.

E é literal a forma directa de como passam das arenas para as tascas – tasco mesmo qual Bica do Sapato, noblese oblige mas não tanto. Um pouco na onda daquele típico salto que fazem aquando da pega, assim invadem, que nem touros raivosos, o dito tasco, interrompendo então, o faduncho que alguém cantava com sentimento.

A sua presença é imediatamente notória: são, na maioria das vezes, mais que as mães, baixos e fortalhoides, vestem-se de forma despreocupada - provavelmente a peça mais moderna é uma camisa que a namorada betinha comprou na Pull – e falam alto, quase que se pode dizer que grunhem – quiçá fruto das convivências animalescas.

E são brutos, brutamontes mesmo. E como têm a força à flor da pele, muitas vezes sentem necessidade de a libertar mas não sabem bem para onde. Porque em Lisboa não há touros, ou se os há, não estão à mão de semear, o moço lá tem de arranjar forma de extraviar as hormonas inquietas e saudosas do raio dos animais, terminando invevitavelmente na porrada. E a culpa não é deles mesmo, está-lhes no sangue. 

E é aqui que julgo notória a diferença dos “nossos” Marialvas para os de antigamente. Não é pelos comes e bebes, já que antigamente havia uma certa selvajaria no acto de comer – isto antes de ser chic ter um prato XL e uma folha de rúcola no centro. Não é no mulherio porque a pouca vergonha também abundava nas cortes e afins. Nem tão pouco é pelo bom uso das palavras. Mas a diferença é nítida no objectivo das lutas. Enquanto os de antigamente lutavam por uma causa maior, nobre, lá está, os  de hoje lutam sem aparente causa. Lutam porque sim.

Do mundo da blogosfera: "Um marialva é um Homem (com H grande notem, é Macho!) que não tem medo de ninguém, gosta de touradas, fado, vinho, e mulheres, muitas mulheres... Em linguagem mundana e refinada, é resumido em "Putas e vinho verde".

Macho: “Que é do sexo masculino.10. Pop. Forte, robusto, másculo, vigoroso”, até aqui nada de novo, mas a definição começa por “Qualquer animal do sexo masculino”. 

E é aí que julgo que as minhas suposições não estão de todo erradas. Se é que me entendem. 

(artigo publicado na edição nº 28 da Revista Nós, do Jornal I")

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

esta noite visitam-se castelos de alodão doce


se o nome por si, já nos transmite uma vontade tremenda de mergulhar nesta obra, o sorriso simpático e sincero do menino que espreita, deixa-nos completamente rendidos. "Castelo, por ser um mundo isolado apenas conquistado por quem tem a coragem de o querer alcançar; Algodão, sinónimo de candura, leveza e paz; doce, é tudo aquilo que é genuíno desde um sorriso a um olhar. Este livro presenteia-nos com uma nova abordagem ao mundo sub desenvolvido, geograficamente tão longe mas com ideais tão simplistas como os do nosso “mundinho” – A procura da relação com o nosso “eu”. Por mais que sejamos fruto das circunstâncias, a tendência básica será descobrir a pureza do homo sapiens que temos cá dentro. Vamos ler, e devagar o que Maria e Teresa apoiadas por Mia Couto, Fernando Nobre e Laurinda Alves têm para nos contar. Mais um valioso projecto da AM"
texto retirado do le cool

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

quem corre por gosto até cansa. mas sinceramente, quer lá saber!

do  verbo “andar”, o  gerúndio “andando” usa-se para indicar continuidade. andar continuamente. andar em direcção a qualquer coisa, não se sabendo bem o quê. a mesma continuidade implica um não-destino, uma não-paragem, um não-objectivo. ditas as coisas de outra forma, o nosso ilustre conhecido “vai-se andando” não leva a porra de lado nenhum.

mas, e infelizmente, é dos tempos verbais que mais se ouve no nosso querido Portugal.

minto? todos sabemos que não.

vá-se lá perceber porquê, o “vai-se andando” está nos genes dos Portugueses. provavelmente na primária o gerúndio tenha sido martelado como nenhum outro, ou talvez sejam apenas influências das telenovelas brasileiras. mas lá que está, está. é existente.

e o problema maior é que, de facto, o mesmo não leva o País a lado nenhum. de tanto “ir-se andando”, não passamos da cepa torta.

ainda há pouco estava eu na caixa do supermercado, pronta a pagar uma sandwuiche que comeria em 3 tempos, já que oucupara a minha hora de almoço na prática de yoga, enquanto à minha frente uma senhora velhinha, entre sacos e saquinhos, moedas e talões, solta um arrastado “vai-se andando” aquando a simpática pergunta do ainda mais simpático senhor da caixa “como vai a senhora?”.

eu lá percebo a resposta da senhora, como não havia de perceber. depois de dezenas e dezenas de anos a lutar por uma vida melhor, chega a uma determinada altura em que a força física e ainda mais a psíquica, perdem todas as capacidades de agir para algo, limitando-se a agir por agir, agir em prol do passar do tempo.

agir em prol do “andando”.

mas isso é a senhor dos tais setenta ou oitenta anos que apenas comprava uns bolinhos para os netos, ou sobrinhos netos. esse é o objectivo dela, portanto o pacífico andando dela não tem pressas de chegar a seja onde for. talvez o facto de conseguir chegar a casa todos os dias sem nenhum mal-estar, já seja para ela uma vitória.

e aí, sim, alcançou um final.

a questão é que o “vai-se andando” não se fica pela tal faixa etária que não lhe resta senão “ir andando”.

“vai-se andando” vai ,também ele, dos 0 aos 100.

ora eu cá vivo numa correria pegada.

corro de manhã para levar o meu filho, corro para ir trabalhar, trabalho a correr, almoço às 3 pancadas porque não abdico do meu yoga, trabalho para fora noutros projectos, projectos esses que me enchem a alma e agora até voltei a estudar em regime pós-laboral – eu, mãe solteira e publicitária mal vencida (de vencimento, claro). mas corro por gosto. cansada, sim, porque correr cansa, mas sinceramente, quero lá eu saber do cansaço!

pelo menos sei que dei, e dou, o litro para que a minha vida não se passe “andando”.

não querendo entrar a matar, confesso que me causa alguma irritação o paralelismo entre o queixume tão típico à tuga e o “vai-se andando”. queixam-se, queixam-se e queixam-se ainda mais, mas alguém faz algo para que as coisas aconteçam de outra forma?  não, correr custa e dá trabalho, e enquanto se vai andando pode ser que se tropece na sorte.

nunca se sabe.

de maneiras que, respondendo às pessoa que me perguntam como consigo fazer tanta coisa ao mesmo tempo, está respondido: correndo e nunca andando.

o ovo no cú da galinha só aparece nalguns galinheiros. e mesmo assim, nem sempre é de ouro.

do País, seria bom que se mudasse o tempo verbal para algo mais imperativo, algo que incidisse mais na acção, e menos na exaustão, na sofreguidão. é que se o correr cansa, o ir andando, a longo prazo mata. 

tenho dito. e creio que todos, temos visto.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

rir é o melhor remédio

Há dias para cá, na leitura que faço matinalmente em fast-forward e de trás-pra-frente, pela imprensa diária nacional, tenho notado que o tema “depressão” ocupa desmesuradamente os cabeçalhos da dita. Ora, a meu ver, com a imprensa a martelar no tema desta forma, estão lançados os dados para que a nuvem cinzenta que paira sobre o País há meia dúzia de anos (que positivista!), teime em não sair.
Pior, acomode-se de tal forma que nem o sol nos safa.

Mas contra factos, dificilmente se arranjam argumentos.

Não há dia que não se oiça que fulcrano está com uma depressão, sicrano está com a “depré” – numa versão mais snob - ou que a puta da neura atormenta o juízo dos restantes fulcranos, sicranos e beltranos desta vida.

Tirando psicólogos e farmacêuticas que, enquanto lhes sobem os tostões, esfregam as mãos de contentamento, todo o resto do português, por si só, apto a receber a tristeza, o que vê é um cenário ainda mais negro que o instalado – valha-nos o sol que teima em não ir embora.

Para mim, mera criativa publicitária – e, como disse a Judite Mota em entrevista ao “I”, e muito bem, o ser-se “criativo” é uma qualidade e não uma profissão, portanto, nem profissão tenho – arrisco-me a dizer que essa coisa da depressão, tem muito que se lhe diga.

Antes de mais, e quem o diz é o “I” (é assim tão claro que estou fã do jornal?) “Nos próximos 20 anos, a doença mais comum do mundo não será o cancro ou as doenças cardíacas, mas a depressão, estima a Organização Mundial da Saúde (OMS).” Mau? Pois acrescenta “Segundo dados da organização divulgados hoje, além de afectar mais pessoas, a depressão será ainda a doença que mais custos económicos e sociais irá acarretar para os governos. Os países mais pobres serão os mais afectados pelo problema. Mais de 450 milhões de pessoas sofrem actualmente de transtornos mentais, sendo que a maioria encontra-se nos países em desenvolvimento, indicou ainda a OMS”. Mau não, péssimo.

De seguida, e num artigo relacionado, falam-me em depressão “pós-casamento”(risos). Ora eu conhecia a depressão pós –parto. Teoricamente apenas, porque apesar das condições em que fui mãe, 21 anos, solteira e tudo o que daí advém, não tive depressão porra nenhuma. Tinha lá eu tempo e vida para ter depressões, pelo amor de Deus.

Mas então, as pessoas casam-se, fazem uma festa onde chutam uns quantos milhares de euros – os paisinhos, sempre os paisinhos – vão largar mais uns quantos euros para uma Bora-Bora de águas translúcidas, porque os da festa não foram suficientes, aterram, olham um para o outro e entram em depressão? Era a sombra da bananeira que julgavam jurar para sempre perante Deus e afinal o máximo que podiam – e já é bem bom quem-me-dera - era ter uma árvore plantada no jardim da casa no centro de Lisboa.

Não falo com conhecimento de causa porque não sou casada, mas sei reconhecer que o casamento deverá requerer sacrifícios e há-de ter momentos menos bons, agora, o que não creio é que isso se revele 1 mês após a aliança estar dada. Digo eu, não sei. Estou baralhada.

O que sei, e no fundo acho que todos sabemos, é que actualmente se vive numa sociedade egoísta. Tremendamente egoísta. Virada única e exclusivamente para o seu umbigo e bem-estar. E tenho para mim que é aí que a dita depré começa.

Gente mimada e mal habituada que vive na sombra do facilitismo. A porca torce o rabo é quando as coisas não correm como o “planeado”. E como a coisa não correu como nós, agilmente a tínhamos planeado – porque era assim que tinha de ser – a ausência de um plano B faz-nos saltar imediatamente para o plano C – a tal depressão.

Então torce a porca e contorce-se a carteira afundando-se em psicólogos e os aclamados anti-depressivos.

Depois vem-me à baila uma outra questão que acho pertinente, sublinhando que é mera suposição minha. Sou da opinião que ser-se feliz, é antes de mais uma capacidade. E aqui sim, entram os afortunados, porque nem todos têm essa força interior e essa capacidade do saber “ser feliz”. E isso, infelizmente, não se aprende.

Da inteligência emocional à arte do bem relativizar, clichés à parte, treinar a mente a ver o lado bom das coisas – sim, no meio da merda é possível encontrar-se um cheirinho a rosas – não seria mal pensado funcionar como uma disciplina da primária. Mais que pertinente, seria inteligente.

É como dizia Churchill “sou um optimista, não me resta muito ser outra coisa”.

É claro, que aqui para estas bandas, neste belo jardim à beira mar plantado, apesar do sol, das praias e das flores, da paz em que se vive, o pessoal gosta de curtir a depré. Okay, ok, ninguém gosta de curtir depressão nenhuma, mas alguém faz alguma coisa para não a deixar entrar?

Que nem looping da feira popular, voltamos a entrar no patamar do facilitismo. Fácil, fácil, fácil. O fácil é sempre o caminho a optar, porque no caminho do fácil não existem obstáculos que nos atormentem, no caminho do fácil não existem rejeições, no caminho do fácil o terceiro é quem paga as favas, no caminho mais fácil somos meros passageiros passivos e nunca carregamos o papel de activos. A “culpa nunca é nossa”. É sempre do trabalho que é demais, do dinheiro que é de menos, do palhaço que entupiu o trânsito e nos fez chegar atrasados, da besta quadrada do marido que nos meteu os palitos, do stress que nos engorda, e do raio que nos parta.

E é tão mais fácil entregarmo-nos e rendermo-nos à “depressão”, que tentarmos lutar por uma vida mais cool. Sim, não me venham com histórias, sim a vida é fodida e difícil, não, o dia-a-dia não é fácil, sim, podemos tentar pintar o quadro mais cor-de-rosa. Mas sim, isso dá trabalho. O queixúme é sempre fácil e bem-vindo. Com sorte ainda nos passam a mão pelo pêlo, reconfortando-nos com as palavras que tanto queríamos ouvir e pronto. Lutar, bater com a cabeça nas paredes, ouvirmos o que não queremos, tentarmos não estrebuchar e aguentarmo-nos às bombocas da vida, é lixado. Mas só nos faz é bem. Não nos matando, torna-nos mais fortes.

Ouvi há pouco tempo uma frase óptima que não me lembro na sua íntegra, mas basicamente dizia que, se não vivermos na expectativa, se não vivermos à espera que tudo aconteça, o que acabar por acontecer, o que vier ter connosco, será recebido com muito mais ânimo e um sorriso não improvisado. É apenas mais um truque, I guess.

Mas na verdade, quem sou eu para ditar sentenças na arte do bem viver, não é mesmo? Pois é.

Então deixo-vos com uma recomendação de leitura à la imprensa internacional. O Courrier International lembrou-se de contrariar o panorama e mandou, bem mandando, um artigo acerca do universo do riso e dos bem-humorados. E vale a pena ler porque feitas as contas aos tais psicólogos e anti-depressivos, rir acaba por ser mesmo o melhor remédio.

(Texto citado no programa de Pedro Rolo Duarte "Janela Indiscreta", na Antena 1)

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

nem tanto ao mar nem tanto à terra

entretanto, o PRD relembrou-me que os comentários podem ser moderados. porque comentários construtivos caem sempre bem, bombem à vontade.

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Sai uma razão à Portuguesa, por favor

Tínhamos tudo para a ter, à razão, mas o tuga – digo-o eu portuga de gema e cheia de orgulho– não a sabe segurar, nem tão pouco assegurá-la. O tuga perde-a, pior, dá-a de mão beijada a quem não a tinha e que então passa a tê-la.

Parece que andam por aí uns certos e determinados arrufos a pairar nos ares...  quem diz ares, diz facebooks da vida – que basicamente comanda as tropas – seguindo-se a televisão, imprensas e afins, entre nós e os nossos compatriotas de língua, esse povo brasileiro.

(É, realmente confirma-se, estamos na era da informação e antes de alguém mandar um “i”, já toda a gente sabe que era um “ai” que aí vinha).

(Ai qui legau...)

Retomando.

A coisa começou mal.

Eu, amante incondicional das palavras e, ao fim ao cabo, dependente delas já que são elas que me pagam contas, vejo-me obrigada a entrar em acordo com um tal de desacordo ortográfico, que me manda comer pato em vez de o fazer.

A tentativa de desacordar foi, mais uma vez, um fiasco total. Farta de assinar petições sem frutos estou eu. Venha de lá o pato que tanto gosto, principalmente se for arroz de, e venham os pactos que continuo a assinar por baixo.

Portanto, nesse aspecto, o brasileiro não me aquece nem me arrefece, afirmo que mantenho com tranquilidade o meu desacordo. E assim pretendo continuar.

De seguida, chega-nos um tal de Duda com um comité de leões atrás e cheio de óptimas – ótimas - intenções, para transformar o nosso sítio do costume, no suprasumo do costume.

Eu não queria um suprasumo. Eu e mais 75% (?) dos portugueses, estávamos felizes com o sítio do costume e as receitas apetitosas e cheias de bom aspecto – ou deveria dizer aspeto – do Pingo Doce.

Zás pás trás, rebébéubéu pardais daninhos, como diria o meu amor, eu diria danados, ai que cai o Carmo, a Trindade, a Manhattan da publicidade das Amoreiras, tudo cai em cima do tal Duda que só queria fazer um filme daqueles que apela ao sentimento (e que nós  tão bem conhecemos).

Não tendo o devido conhecimento que o Fado virou trendy e não só nas tascas o mesmo se ouve e que os galos de Barcelos vendem-se a preços enxutos numa loja pós-moderna em pleno Chiado a cores variadas (ando a tentar comprar um lá para casa), Duda, sem um pingo de vergonha, falha redondo.

Falhou. Pois falhou, mas convenhamos, quantas campanhas não falham em Portugal?

(mas também não quero iniciar uma discussão publicitária que não é por isso que escrevo).

Tudo bem, é criado um grupo do pessoal que não grama a campanha – eu mesma estou lá - ajuntei-me (o ajuntamento, sempre tão na moda). Eu, e ao que parece, mais centenas ou milhares de portugueses. Tudo a bater no ceguinho como se não houvesse amanhã.

A seguir vem a televisão – sempre a seguir – os jornais, diários económicos e afins.

Coisa séria!

Um histerismo desmedido em redor de uma campanha que, infelizmente, recuou nas expectativas de um Pingo Doce sorridente que só quis tentar uma nova estratégia e foi escolher um brasileiro que realmente saberia fazer publicidade da boa e, afinal, não soube.

Alguém vai deixar de ir ao Pingo Doce porque ouviu uma senhora a balbuciar umas palavras pseudo-saudosistas, a coitada?

Eu mesma, fui na hora de almoço comprar os frescos do costume e mais meia dúzia de coisas, a senhora cantava alto e eu limitei-me a voltar a colocar nos ouvidos o som de hilightribe que por acaso ouvia. Se não tivesse o ipod comigo, também não abandonaria o super porque a senhora cantava. É que Santa paciência!

E tal como eu, duvido que quem vai ao sítio do costume, o deixe de fazer porque o senhor Duda teve um lapso de mau timing. 

Então porquê tanto alarido?

Não é demais? E não se diz que tudo o que é demais é erro?

É, e no caso é mais que erro. Toda a razão e o direito à crítica, perdem-se no meio do ressabianço e do (que me custa) sentimento de inferioridade tão “nosso”.

Passamos a isso minha gente, lamentavelmente, passamos para esse patamar.

Neste caso, porque sentimos orgulho ferido de um cliente tão querido, que trocou o Nacional pelo Internacional. Talvez porque eles, os brasileiros, sempre foram melhores que nós na prática da propaganda.

Falharam? Errar é humano, criticar também, mas com peso e medida. Caso contrário, a razão perde-se algures entre comentários ressabiados e críticas não-construtivas.

Adiante que já estou a ficar com pingos de urticárias à pala disto.

Hoje de manhã, no sítio do costume, desta feita o facebook e não o PD, falam-me dum vídeo em que essa grande actriz dos nossos “irrrmãos”, Maitê Proença, faz uma triste, ainda que deveras interessante, reportagem chez Portugal, onde o deboche é a palavra de ordem.

Digo interessante porque achava quase impossível a ignorância de uma actriz de renome internacional ser tão abismal. Digno de estudo.

Fiquei chocada, completamente chocada. Até porque sou fã número 1 das telenovelas da Globo e tenho-os numa fasquia elevadíssima.

E continuo a ter. Claro que continuo a ter, é inegável o talento dos senhores e ainda mais inegável é a qualidade superior das suas produções face às nossas.

Mas de volta à Maitê, sinceramente o sentimento foi nem mais nem menos que o da vergonha alheia - dos piores que se pode sentir.

De “ vaca” para cima, passando por “odeio os brasileiros” “parto-te os dentes se metes cá os cotos” !”#$&/&%$#”! e puta para a frente, o tuga bota a mão na anca, aplica a chinela, levanta o dedo e está instalada a peixeirada.

Se a senhora gaja teve bem? Não, teve pessimamente. Caiu-lhe mal, fez figuras que ultrapassam o triste, mas precisamos de desatar num insulto desenfreado à comunidade brasileira porque a senhora gaja esteve mal?

Não, não podemos.

Não, não devemos.

Não, não nos fica bem.

Sim, perdemos alguma razão.

Ela teve mal, muito mal. 

Nós, ao generalizar o episódio aos restantes milhões de brasileiros, muitos deles igualmente envergonhados com a cena, e a disparar putas para cima, ficamos pior.

Muito pior.

É a falta de inteligência emocional que nos faz perder a razão. Outra vez. Se usássemos esta raiva e este amor incondicional ao nosso País, que é nesta alturas que se vê o quanto O amamos, para o bem, para algo construtivo e beneficente, não seria mais inteligente?

Porque é que ninguém criou grupos de aplausos para o episódio Ana Moura em trabalho com o Prince?

Nada disso.

O exagero, o histerismo, o coitadinho, outra vez.

E mais uma vez, bandeja na mão, alguém fique lá com a razão.

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

ser gemeniano

é provocar 101 comments num só post. há signos fantásticos, não há?

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

from now on

comentários, só para o email - mpurezafleming@gmail.com 

é que estava a ficar grega com tantas letras chinesas 

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

do arrependimento que não mata mas dói pra cacete*

De cabeça baixa e olhos presos no chão, foi através do movimento corporal dos soluços sufocados que percebi que lágrimas silenciosas lhe corriam rosto abaixo. “xxxxxxxxxxxxx”, sussurrou deslavando-se num pranto sentidíssimo. 

* corroída pela dor de ver um filho chorar, é este o preço de ser mãe nos nossos dias. depois não se admirem.

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

do desalinhamento de chakras

este !"#$%&/()=?=)(/&%$#"!"#$%&/()=?=)(/&%$#" deste "ser" do além que invade a minha caixa de comentários, alguém sabe como pará-lo?

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

equilíbrio, concentração e alguma elasticidade dos progenitores

foi há mais ou menos 5 anos, que a minha veia shanty-zen resolveu experimentar uma aula de yôga ali no Holmes gay, desculpem, place, pela primeira vez. a razão - nenhuma em específico - mais uma vez, a shiva (criadora) que há em mim à mistura com este nome que os meus pais me deram, fizeram-me aterrar em posição de lotus naquela aula cheia de gente barulhenta e nada shanty.

barulhenta ou não, a verdade é que nunca mais parei de fazer (fora do holmes, claro). sim, cliché à parte, o yôga mudou a minha vida. descobri que o ôm não é só um símbolo giro para tatuar no pescoço, nem tão pouco as canções – vulgo mantras – servem para mostrar que se sabe dizer umas palavras em hindú. Aprender a respirar de forma correcta, saber estar numa posição, aos olhos de terceiros, impossível de manter, e aguentar o máximo tempo sem qualquer grau de sofreguidão, com a cereja no topo do bolo que é um corpinho trabalhado até ao milímetro, o yôga realmente fez – e faz –maravilhas à minha vida.

há dias, num dia daqueles não-tão-bom, estava na aula e enquanto focava o ôm da parede, tentava abstrair-me dos problemas. a concentração torna-se dificílima quando a nossa mente mais se assemelha a um barco em alto mar num dia de tempestade. “concentração, equílibrio” insistia a Sandra. e eu tentava… juro que tentava, mas do nada lá caía um relâmpago que me fazia balançar qual árvore nesse mesmo dia de tempestade. pronto. lá se foi a concentração.

primos direitos, o equilíbrio e a concentração, dificilmente funcionam quando a mente, a mãe de todos eles, não está nem equilibrada nem concentrada. na verdade, não posso falar numa mente em desequilíbrio que aí, graças a mim, tudo vai funcionando. mas quem é que me garante a concentração quando na minha cabeça só martela “a quem vou pedir hoje para ir buscar o Miguel ao colégio?”, “como é que vou resolver aquele briefing?”, “como é que vou pagar aquela p!$&/& daquela conta animal que aterrou na minha podre e disfuncional caixa de correio?”. um tormento meus caros, um tormento. mas real. e o pior é que nem o yôga, esse peacemaker da minha vida, me faz relativizá-los, aos pensamentos. é que por mais que invoque a shiva e por mais que o positivismo venha ao de cima, as contas continuam no local onde deveria estar o dinheiro, um tele-ideias ainda está por existir e a pessoa imaginária e à minha disposição para ir buscar o miguel todos os dias ao colégio, está longe longe de aparecer. tenho a certeza que se tivesse uns pais com uma elasticidade bancária enorme, o dito equilíbrio e a merda da (des)concentração fariam os seus serviços de forma bem mais tranquila. 

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

pim pam pim

Cai uma

Cai outra e mais outra

quando se vai a ver a última outra,

de não-tão mansinho outra surge em queda do Minho

outroura

que esta caiu na hora

de outra maneira sem avisar

uma outra vez desta do mar

outra sem norte

outra do sul

de leste para este já quebrado

pum pás trás outra que vem de trás

e zás

já estás

levanta outra vez

que esta não foi de vez.

sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

no banco dos réus

diz-se que um mal nunca vem só. 
não só se diz, como também se vê. sente-se, ressente-se, sofre-se, amaldiçoa-se, critica-se.
a vida - ai a vida - a única vontade é mandar tudo ao ar, ir e não voltar.
diz-se que um mal nunca vem só. chora-se e brada-se aos céus questionando "porquê", aguardando tão humana e cínicamente uma resposta do além, quando na realidade a resposta cabe-nos - e aqui sublinho o "caber" - realmente a nós. 
diz-se que um mal nunca vem só. acusamos alguém, acusamos tudo e todos apenas para nos aliviar a alma, apenas para sentir a doce sensação do "coitadinho". no fundo, é através desse mesmo sentimento que, calorosamente, nos aconchegam o espírito e nos acalmam a mente.
diz-se isso. o que não se diz é de onde nasceram os tais males que, abruptamente romperam a nossa vida.
diz-se isso, pois que se diz. mas não se rebusca a mente até às suas profundezas onde, confortavelmente, se escondem as origens dos tais males que, "oh que coitadinhos somos", tomaram conta da nossa vida.
diz-se muita coisa porque o mais fácil é mesmo dizer. 
mais fácil que agir, rebuscar, analisar, perceber e, consequentemente, melhorar, é acusar o exterior das nossas erróneas acções. 
o que se esquece é que da acção nasce a reacção - tirando rara excepção em que é a própria natureza que se encarrega de o fazer.

por isso agradeço a racionalidade que há em mim. 
agradeço aceitar o que faço sem pensar e as consequências que daí advém. 
agradeço colocar-me no banco dos réus por vontade própria, pedir perdão, acarretar com as devidas penas e, com isso, aprender.
agradeço do fundo.

o mal realmente nunca vem só, porque se o praticamos uma vez sem realmente admitir que o fazemos, facilmente ele tomará as rédeas para um rol de coisas que nós, tão inofensivamente, sofreremos.

ps: a decisão de umas merecidas férias vai afastar a indecisão nos próximos 15 dias. um bem haja para todos.

quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

qué sabé?

terça-feira, 11 de Agosto de 2009

where is my mind? *

* assim sendo nada me resta dizer.

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

qualquer coisa que já não sei se sei

não irei? mesmo?
se é de indecisão que por aqui se fala, então que seja à séria.

qualquer coisa que sei

não vou, portanto, fui.

qualquer coisa que não sei

apetece-me qualquer coisa que não sei.
não me apetece ir.
não me apetece ir, mas também não me apetece ficar.
não me apetece ir, também não me apetece ficar e talvez até me apeteça um bocadinho ir.
não me apetece ir, também não me apetece ficar, talvez até me apeteça um bocadinho ir, mas não tenho a certeza.
não me apetece ir, também não me apetece ficar, talvez até me apeteça um bocadinho ir, não tenho a certeza, mas tenho a certeza que não quero ficar.
não me apetece ir, também não me apetece ficar, talvez até me apeteça um bocadinho ir, não tenho a certeza, tenho a certeza que não quero ficar, o melhor é talvez ir.
não me apetece ir, também não me apetece ficar, talvez até me apeteça um bocadinho ir, não tenho a certeza, tenho a certeza que não quero ficar, o melhor é talvez ir, nem que seja para não ter de ficar.

quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

isso é que é pior

pior, é quando nos tornamos tão durões, que na hora "h", a acção vira-se contra nós e tornamo-nos vilões

pior, é quando rejeitamos as lágrimas, quando as depositamos num qualquer recipiente  e as prendemos violentamente

pior, é quando dói mas não mói, sente-se mas não se ressente 

pior, é quando a dor passa a invisível, transparente, quando a dor é ignorada, mas está lá, é existente

pior, é quando o racional toma conta do emocional, quando o domina sem o deixar agir da sua forma natural

pior, é quando o sofrimento é apagado, afogado e afagado, quando cresce mas não transparece, quando magoa mas não povoa

mais que a aceitar, pior é rejeitar a dor, porque quando nos deparamos com ela não sabemos como a olhar, como a levar como não a deixar ficar, como só a deixar ir

pior, é aprisionar a dor com a nossa frieza  

isso é que é pior

mea culpa, quem me mandou cultivar a dureza?

terça-feira, 4 de Agosto de 2009

o que está acontecendo...

o mundo está ao contrário e ninguém reparou...
Cássia Eller & Nando Reis "Relicário"

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

freakness

desengane-se. 
desengane-se para quem o freak usa rastas, desconhece a água e vagueia pelas matas. 
desengane-se para quem o freak, esse ser, é o vegetariano obsessivo, é o naturalista espiritual e em nada pocessivo. desengane-se quem julga o freak pelo que veste, pelo colorido que investe, 
porque não pertence nem a norte nem a sul, 
nem este ou oeste. 
desengane-se quem julga o freak pelo que fuma, pelo que não bebe, 
pelo que dança, pelo ser que só ele é, tão leve. 
desengane-se o que o julga pelo trance que ouve, 
pelo psicadélico que o move, 
pelo som alternativo ou pela ausência do ser altivo. 
porque freak não é aquele que trocou a sola do sapato pelo tacto da natureza; 
não é aquele que nas mais pequenas coisas aprecia a beleza; 
não é sequer aquele que vive sob, sobre e para a Pureza. 
freak é a imPureza, 
freak sou eu. 
freak sou eu e o comum dos mortais 
que para aqui anda à mercê de não sei quê. 
freak sou eu e todos os outros 
porque num dia somos uma coisa e em vão já o fomos. 
freaks somos nós que de manhã somos ouro, à tarde prata e à noite não mata, 
mas também não trata. 
freaks somos nós e não os outros. 
os outros são sempre, 
nós um dia somos mas no outro, 
somos  indiferentes.

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

i'm not like the other girls #3

i don't speak the "sweetie bittie innie babie" language.

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

i'm not like the other girls #2

não gosto de surpresas, como por exemplo, flores no trabalho.

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

mente sana in corpus sanus

uma hora de prática de yôga, seguida de um almoço onde os verdes tiveram lugar de destaque: creme de courgettes, massa integral com tomates cherries, queijo fresco e frutos secos, acompanhados de uma farta salada de alface e rúcula, regada a balsâmico e pintada de oregãos. para a sobremesa, apenas a paz interior e um excelente ânimo para o que resta de uma 5ª feira com aroma a fim de semana.

quarta-feira, 22 de Julho de 2009

voltei. e agora?

voltei porque voltei

voltei porque sou impulsiva

pus em questão ter voltado porque sou racional

voltei porque vivo da escrita

voltei porque preciso da escrita

voltei porque hoje é sim, amanhã é talvez e ontem houve não

houve não querer partilhar mais

houve crise de inspiração e falta de aspiração

mas a verdade é que voltei

voltei apenas porque me apeteceu

voltei

e agora?